domingo, 20 de abril de 2014







ALTOS PAPOS COM MEU AMIGO CARLINHOS DE OLIVEIRA.

A nossa turma se reunia em frente à Rua Montenegro. O assunto, o Rio de Janeiro. Sempre. Suas belezas, a arte, os lançamentos de livros, as vernissages, as novidades.  Essa crônica foi a resposta que ele me deu sobre como seria para ele a nossa cidade. Saudades de nossos papos, Carlinhos!...

domingo, 6 de abril de 2014





A Loja de Pianos da Rive Gauche – de T.E. Cahart (Edições Best Bolso)
Paris é uma metáfora do sonho.  Suas ruas, arquitetura, detalhes e cultura, ultrapassam o desejo, e se encaixa perfeitamente no - com a licença de Freud – para além do princípio do prazer.  As delícias estão nos detalhes, e, descobrir cada um deles, é um requinte que só os que apreciam o belo podem curtir.  Não é necessário ver “Paris à meia-noite” para descobrir a cidade: basta caminhar pelas suas ruas, pelos atalhos e você entenderá o segredo dessa magia
Foi exatamente isso que o autor desse livro delicioso fez: andando pelas cercanias de sua residência, na Rive Gauche, encontrou uma lojinha de pianos.  Não uma lojinha qualquer, mas um lugar de consertos (e concertos, por que não?), de peças de colecionador, de raridades, arte e boa conversa.
Como bem diz o autor, a fachada da loja de pianos tem “um charme sonolento do século XIX” (pg.11).  Fala de um tempo onde não há pressa, onde cada detalhe dos pianos é cuidado com a delicadeza de fadas, onde há o registro dos que dedilharam as teclas dos antigos  Pleyel  e outros pianos maravilhosos.  Há a descrição detalhada do interior do instrumento, mas não uma descrição fotográfica.  Trata-se de uma observação sobre a alma que está no interior de cada peça.
Ao ler o livro, percebermos que cada piano trás, na sua história, elementos tão ou mais humanos, quanto a descrição de pessoas: os  tristes, por exemplo, condenados a ficarem calados, quer pelo mau trato de seus possuidores, quer pelo  desinteresse ou falta de talento de seu dono, são lamentados. Um piano cujo destino é permanecer silencioso, “é como se confinassem numa solitária alguém que tem muito a dizer” (pg. 33)
O personagem Luc, cuidador de pianos é uma criatura que lida com a sensibilidade de cada uma de suas peças, de uma maneira delicada, sutil e entusiasmada .  Tanto que, naquela loja, somente algumas pessoas eram permitidas de entrar.  Não há aquela ânsia capitalista de vender, lucrar e acumular.  Para adquirir um piano, você tem que ser especial.
Cada uma das pessoas que frequenta a pequena loja da rive-gauche, trás um enriquecimento ao leitor e acrescenta detalhes, os quais escapam da mera observação de um concerto, pois Cahart descreve a essência de cada um e de cada passo: “saber tocar as notas, é só o início; o trabalho de verdade só começa depois, quando quem toca acrescenta algo de si à intenção do compositor.
Enfim, esse livro é um poema delicioso que ilustra e faz com que nunca mais olhemos um piano da mesma maneira.
Mas para isso “bata à porta, seja paciente e Paris poderá oferecer-lhe mais um de seus inestimáveis prazeres” (pg.9).

quinta-feira, 20 de março de 2014

Quem ri por último




 


QUEM RI POR ÚLTIMO




   Terra das contradições, dos grandes ricos e dos muitos pobres, o Brasil, carente de ídolos e líderes políticos, gurus, filósofos, pensadores com quem possam identificar-se, seguirem ou serem aconselhados, elegem, de tempos em tempos, figuras marcantes nas áreas mais diversas as quais, servem de apoio e parâmetro para suas expectativas, seus ânimos e seus sonhos.

   Foi assim com políticos, cuja postura oportuna e efemeramente correta pareciam corresponder ao anseio do povo longamente oprimido pela ditadura.  E quando por tragédia ou artimanha do destino esse líder – passageiro – vem a falecer antes de comandar o espetáculo, é promovido a santo, pois passa a representar o ideal sempre almejado e nunca alcançado.  Ele torna-se o representante autorizado do sofrimento popular, por isso, seus eventuais erros do passado, são omitidos, esquecidos, calados ou minimizados.

   A consequência disso, é uma espécie de “efeito elástico” onde uma busca frenética pelo substituto do ideal é ativada.  Dá-se em consequência disso, uma corrida louca atrás de novo representante ou militante que fale em nome dos carentes, dos desesperados e dos desempregados.  Elege-se então, às pressas, astros efêmeros,  âncoras fabricados, líderes forjados, novos reis ou rainhas do rebolado.  Mas logo a máscara é arrancada e dá-se o efeito turmalina, ilusão das falsas esmeraldas.

  O povo, como resposta, investe ferozmente no seu time de futebol, no cinema nacional, na telenovela, na escola de samba favorita, tudo numa síndrome etnocentrista que descarta rivais, ignora padrões de qualidade, e torna-se assunto invariável dos botequins, dos bares nas happy hours, dos salões de dança e cabeleireiros.

   Mas eis que, oportunista de carteirinha, aderente que nem silicone, surge o “belo tipo faceiro”, sorrateiro, acertando o passo no ritmo de uma humildade forjada.  Ele muitas vezes vem tão de mansinho, tão disfarçado em suas verdadeiras intenções que o povo fica envolvido com sua pele de cordeiro e não percebe o lobo que ele envolve.

   É interessante que a tática é sempre mais ou menos a mesma: ele aparece aos poucos, em pequenas notícias de canto de jornal, sem grandes manchetes ou nome em destaque.  Normalmente, ele toma carona num tópico de comoção popular, num acontecimento de impacto, numa violência explícita ou numa indignação referente à exploração do povo ou ao uso indevido do dinheiro do mesmo.  Ele toma a frente da revolta.  Denuncia.  É conivente com o oprimido, faz protestos e até greve de fome (não sem antes chamar os jornalistas).  Ele conquista os espaços gradativamente.  Vai passa a ser unanimemente   elogiado.    Eventualmente ele distribui presentes e  cestas  de  alimentos.

 Todos se referem a ele com uma intimidade orgulhosa.  Ele passa a posar para “santinhos”, dá entrevistas, denuncia e, pouco a pouco, seus discursos passam a ser mais direcionados para a política.  Legiões de fãs e adeptos seguem seus passos, citam suas frases de efeito, confeccionam  bottons, fazem camisetas, aparecem, florescem, faturam.  “Uma coisa”, diria Danuza.

   Surgem as eleições, e o manipulador ganha, é lógico.  Mas com o tempo, ele vai mostrando as suas garras, tornando-se elitista, distanciando do povo, descompromissando-se com as suas verdades pregadas. A saída que o povo encontra em cima deste e de outros dramas é o humor. 

Vão surgindo as piadas, rindo das próprias tragédias e desacertos, um mexendo com o outro, ironizando a credulidade, fazendo pouco do muito que investiram.

Freud disse que o humor não é resignado, mas rebelde.  De fato, o humor atua como liberador de algo mais grandioso que é o triunfo do narcisismo, o qual confirma a invulnerabilidade do ego que se recusa a abater-se frente aos duros golpes da realidade, negando aquilo que poderia minar suas metas.  Ou seja: só lhe interessam os motivos de prazer. O humor, assim sendo, minimiza a dor, atenua a tragédia, perdoa o erro em prol de uma reconstrução psíquica.  É uma proteção contra uma tragédia maior, uma saída saudável em busca de uma segunda chance.  Ele ajuda a realizar o luto, pois na sua contrastante exposição bem-humorada, mostra que a vida continua.


   O próprio Freud disse no seu texto sobre o humor, em 1928, que a atitude humorística é um raro e precioso talento.  Em 1905 ele já havia dito que o humor é um meio de conseguir prazer, apesar dos efeitos dolorosos que a ele se opõem, assim, ele aparece em oposição daqueles mesmos efeitos, trazendo em si uma grandeza de ânimo contra a morte e o desespero.  É uma conversão da energia do desprazer em prazer, submetendo-a a uma descarga.  Em resumo, o sujeito foge da dor para não se submeter a ela.


  Não tentemos pois, ser tão rígidos com a sabedoria popular.  Se o povo cria piadas e faz uso do humor frente à desgraça, ao inevitável ou irreversível, ele está dando o recado que a vida continua.


 A morte e a decepção nos desconcertam, nos pegam de surpresa, riem, na nossa cara, cortam e invadem nossa vida com a frieza que lhes é peculiar.  E o humorista, como mal perdedor, sacode a poeira e dá a volta por cima.  Não negando a morte, mas clamando a vida.  E, ao ficar feliz com o sorriso do outro, sabe, no íntimo, quem foi que riu por último.





------











 

quarta-feira, 19 de março de 2014

CRIAR, ENLOUQUECER E COPIAR











CRIAR, ENLOUQUECER E COPIAR



O dilema do escritor diante da página branca



 



Legar devagar e ler e divagar.  Para isso existem os livros e os jornais.  Para mim, não há satisfação em apenas ler o texto à minha frente: necessito sublinhar o que considero importante, genial ou absurdo.  Comento, multiplico uma série de setinhas, sugiro analogias, elogio, critico.  Crio um verdadeiro diálogo com o livro. Aliás, sempre achei que as editoras deveriam criar um meio do leitor conversar com o autor: elogios, críticas ou comentar seus sentimentos tão parecidos, às vezes, com aqueles que ele acabou de ler.



À minha frente, um recorte de o Globo (29/02/2012) com a crônica de Zuenir Ventura: “O escritor e a loucura”. Neste texto, ele fala sobre a visita de Ruben Fonseca ao norte de Portugal, mais exatamente a Póvoa de Varzim.  O escritor, normalmente avesso a entrevistas e discursos, pegou o microfone e disse: “Aqui nesta mesa todos somos loucos” e “A literatura é uma forma socialmente aceita de loucura”. Segundo ele, a loucura é um elemento indispensável à escrita. Como a motivação e a imaginação. E ser paciente.



E aí, volto ao meu “ler devagar e ler e divagar”. Penso nos livros que estão à minha frente e temo não ter tempo para ler todos eles.  Mas não deixo de comprar mais um, mais outro, todos que aticem a minha curiosidade e provoquem meu prazer.



Criar um texto, seja uma crônica, conto, romance, ensaio ou tese, é uma decorrência de um impulso imperativo do autor: a história aparece, de repente, um título pula à sua frente e então começam a pulular personagens os mais diversos e travessos, nuances de trama, diálogos saborosos.  E o escritor tem que buscar rápido seu papel e colocar todo esse mundo que entorna, que pede para ser escrito, exibido, manipulado.



O escritor deve deixar sua loucura e sua irreverência se manifestarem, transbordar sua fantasia, ir de encontro ou contra a censura social, sexual, pessoal.  O mundo agora pertence aos personagens, ao tema que escolheu.  É a loucura indomada.



Por isso, fixo perplexa diante de tantas refilmagens, tantos textos repetindo temas já cansados, tanta falta de imaginação e de ousadia. Por isso, concordo em gênero e número com Lacan, quando ele diz que a burrice é uma perversão e que a psicanálise pode muito, mas ela é impotente contra a estupidez.  Certo, certíssimo! Para estes, criar é impossível.  Então só lhes resta olhar perplexos a folha branca.  Ou copiar.



                                                   Lucia Chataignier – 23/02/2012